segunda-feira, 25 de julho de 2011

Aparta-mento



Quando eu cheguei lá não tinha nada, era vazio e era tudo o que eu queria. Tudo estava branco e limpo e de tão novo parecia um paraíso, um espaço virgem. Amontoei o meu querer junto a outro, e alguns livros de leitura mais que necessária numa estante desgostosa, e costurei em pontos justos meus sentimentos de amor ao efervescente afeto voluntario que invadia todos os gestos, e eu tinha certamente apreço pela cumplicidade naquilo tudo, mesmo frente a tantas conseqüências. Juntei documentos, passei horas em filas, paguei por isto o que eu nem tinha, atestei, lavrei frente ao juiz, assinei contratos de estabilidade por doze meses me lixando para a multa da rescisão, fiz compras de garfos, copos e jogo de panelas, potinhos inúteis coloridos, toalhas de rosto, toalhas de banho, toalhas de piso, toalhas de mesa sem ter mesa, ferro, tabua de passar, ralinhos de pia de múltiplas formas (peneira, furadinho...), promoções de escovas de dente que vem com a pasta! Firmei caminhos e confirmei o meu desejo de desejar, toda a trivialidade de morar naquele lugar tão pequeno aparentemente para dois e que fez-se tão grandioso e vazio para mim – lembrava meu coração – perdeu desta vez, mais uma vez, para o meu emocional-frango. Mesmo tudo sendo tão branco e limpo e de tão novo eu só queria colorir aquele espaço e nem sabia como se fazia isso junto, de dois, descobri sozinha que junto, de dois, ao contrario do que dizem, tudo é mais difícil, porque aparentemente é mesmo muito estreito para dois essa lacuna da segurança no relacionamento, essa brecha amorosa que aceita e respeita sem julgar as intenções do outro, sinceramente amado. Deste encanto que respirei acesa nada eu conhecia até estar completa e opcionalmente sozinha, me arrependi não ter me permitido lutar mais por aquela sensação de completude. Eu entendi em algum momento de aparente efêmera alegria forçada que não se tratava só de estar naquela outra dimensão espetaculosa que o amor propõe, para sentir-me grande ainda houve muito choro, muita angustia e desagrado, muitas constatações obvias camufladas de exagero e as noites de um sonho de verão tentaram e conseguiram me envolver naquelas fantasias. Eu era feliz naquela redoma de afeto, mas eu não tinha qualquer controle das minhas emoções e reações, nem sabia que afeto tão grande assim existia, não conseguia ainda visualizar como projeto a frustração do meu próprio tédio.  Eu só fui conhecer meu monstro horroroso ali, diante daquele imenso amor, parcialmente incompreendida, debochadamente censurada pela inteligência  aparentemente sagaz e diferenciada  elaborada por caprichos vitruvianos.


Você quis saber de mim, eu decorei as paredes de escritos desejos revelados, lamentos confessados, sorrisos ébrios e lagrimas inéditas que de tão nocivas conseguiram me roubar aquela vivacidade alegre e espontânea de mim. Acreditei naquilo e por aquilo eu me matei de amar, e deixei de amar para entender a proporção dos planos e me matei de trabalhar para ter aquele conforto na alma, num verão de janeiro sentada num Bug com os cabelos ao vento.

Não é todo dia que se abre a vala da sinceridade plena.